Renato ainda fantasiava os momentos, nem tão agradáveis, que passara com Marje. Ele havia a "salvado", isso deveria contar alguns pontos. Quem ele queria enganar ? Era mesmo um bobo, solitário e carente. Deveria esquecer isso. O celular vibrou. Renato soltou a fumaça de um beck de maconha, que vinha prensando, e atendeu o celular tossindo um pouco. Era Victor.
- Cara, preciso falar com você...
- Diz ai Victor.
- To querendo armar um lance pra esse final de semana, mas na minha casa não da mais.
- E ae ?
- Seus pais tem uma fazenda, não tem ?
- Uma chácara, perto do lago...
- Que seja, se acha que rola ?
- Posso fazer rolar.
- Valeu ! Me liga qualquer coisa.
A chácara era muito bem cuidada, os pais de Renato tinham um verdadeiro mimo por aquele lugar, talvez porque tivesse sido próximo aquele lago que se conheceram, besteira romântica. Não seria uma boa ideia colocar um bando de gente bêbada naquele lugar, ainda mais porque tinha um lago, poderia ser perigoso. Mas Renato não pensou em nada disso.
* * *
Alice estava muito atordoada e deprimida com os acontecimentos dos dias anteriores. Não sabia o que devia fazer. Insistir, e lutar por Ketelyn, seria causar ainda mais problemas para todos. Porque a mãe dela não podia apenas entender isso ? O que havia demais ? Alice era uma garota, mas e se fosse um menino ? De repente tudo seria simples e perfeito ?
Ketelyn andava indo com frequência para o hospital. Estava sempre cansada. E de uns tempos para cá vinha perdendo muito peso. E agora, Alice sequer podia saber como ela estava. Se ao menos, ainda estudassem na mesma escola...
Se levantou rapidamente, vestiu uma camiseta listrada e uma calça jeans, calçou os tênis, e saiu pra rua. Precisava andar.
Ia passando pelas ruas, como se estivessem em um clipe, sua dor, sua história, sua vida, era quase teatral. Andou muito, tanto que chegou a um ponto que já não tinha certeza de onde estava. As casas pareciam casas de bonecas, um bairro nobre da cidade. Alice morava muito longe dali. Uma praça, bem arborizada, com bancos novos, e uma grama bem cuidada enfeitava uma daquelas ruas. Sentou-se em um dos bancos, admirada pela beleza do lugar.
Quis esquecer tudo, fingir por um momento que era uma garotinha de vestido rosa de cetim. Que tinha um namorado, play boy, que a buscava as oito horas em ponto com seu carro do ano. Fingiu por alguns instantes que sua mãe era uma senhora de respeito, muito amável e carinhosa, que sempre levava biscoitos e leite para ela. Quis que seu pai fosse um homem trabalhador, queria conhecer seu pai. Ah, como era doce a vida daquele lado da cidade. O cheiro de torta, não de cigarro, era o que sentia no ar. Os problemas não chegavam aquele lugar. Era sereno, e tranquilo.
- Hey ... - Uma voz masculina a fez despertar do seu mundo mágico.
- Ãh ? - respondeu meio zonza.
- O que está fazendo aqui ? - Um antigo amigo, que há muito tempo ela não via, estava a encarando de frente, com um ar preocupado.
De repente, a realidade voltou aos seus olhos. Não existiam casas de boneca, não tinha cheiro de torta no ar, ela não era uma garota de vestido rosa. Ela havia apenas sonhado.
- Caralho, onde eu to ?
- Bem longe da sua casa, e você tá cheirando a pinga.
Agora tudo fazia sentido, ela havia saído para andar, e encontrara uns amigos que estavam indo tomar umas bebidas. Ela só não tinha ideia de onde estava. Olhou ao seu redor para ver se reconhecia o lugar; Era uma praça, mas não era uma praça bonita como dos seus sonhos, mas também não era nada mal. Havia alguns casais, umas crianças brincando de bola.. E havia uma menina, triste, sozinha, perdida, confusa, dormindo sentada em um banco. Era o contraste do lugar.
- Rick, porra, quanto tempo.
- É, e você continua a mesma irresponsável. Dormindo em bancos de praça, sozinha.
- Ah, é que a vida tá foda.
- Vou te levar pra casa...
Rick e Alice haviam se conhecido dois anos atrás em uma festa, se divertiram juntos, e depois continuaram a conversar. Ele era uma espécie de diário para Alice, visando que, se conheceram na mesma época em que ela se apaixonou perdidamente por uma colega de classe. Rick era o único que sabia de tudo isso, também foi ele quem a ajudou. Mas depois da morte de sua mãe, Sabrina, o garoto que existia nele se apagou, e aos poucos foram se afastando.
- Ketelyn, ainda ?
- Pra você ver... Mas e você ? Tem namorado ?
- Não tenho tempo nem para respirar direito, meu trabalho tem me sufocado.
- E porque não arranja outra coisa ?
- Não é assim que funciona... Meu pai não trabalha mais, só vive enfiado dentro de um bar. Arranjar emprego não tá tão fácil assim. Ganho bem onde estou...
- Sei lá, de que adianta ter dinheiro e não ter vida ?
O silêncio reinou.
Andaram lado a lado.
Rick, no fundo concordava com ela. Um lado dele, aquele jovial, de vinte anos, queria sair, comemorar a vida, beijar garotas, como os caras de sua idade faziam, porém um outro lado, o lado de toda a sua maturidade, que deveria ter ao menos uns quarenta anos, o dizia para focar no trabalho, pois farra não o levaria a lugar algum. Respirou fundo, soltou a fumaça do cigarro, e olhou para Alice, balançando a cabeça positivamente. Ela entendeu, apenas sorriu, mas havia entendido.
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