terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Capitulo Onze

- Oi, pode conversar ?
"Puta que pariu, esse cara é um chato mesmo."
- Claro, senta ai.
- Olha Marje, eu sei que você nem me conhece, mas queria saber se você não tá afim de ir na minha festa no final de semana...
"Festa ? Desse cara ? Certeza que vai ser um saco"
- Ah, não sei, tenho que ver...
- Vai ser numa chácara, perto de um lago, vai dar mó galera.
- Como é seu nome mesmo ?
"Daora, ela nem lembra do meu nome..."
- Renato.
- Ah, é. Então, eu vou ver, qualquer coisa eu colo por lá. Agora tenho que ir.

Marjorie não tinha a menor pretensão de ir a tal festa, até porque, sequer havia pedido o endereço. Em passos largos foi para o ponto de ônibus, não queria dar trela para aquela conversa. A ultima coisa que ela queria era que ele pensasse que podiam ser amigos.

                                                                            * * *

Rick estava muito pensativo depois do encontro que tivera com Alice. Talvez a velha amiga, estivesse realmente certa, existia mais na vida do que trabalho. Enquanto pensava nisso sentiu que alguém se sentara ao seu lado no banco do ônibus. Um perfume forte, lhe entrou pelo nariz, e um cumprido fio de cabelo, vermelho fogo, caiu sobre sua calça surrada.
Olhou para o lado e teve a sensação de já ter visto aquele jeito agressivo de se vestir, e aquela insegurança nas mãos. A moça deve ter notado que estava sendo observada, pois virou o rosto e olhou para ele com ar de interrogação. Sim, ele já havia lhe visto, seria impossível esquecer aquela maquiagem carregada. Nem toda aquela sombra preta no olho conseguia disfarçar o pedido de socorro que se dilatava com a pupila. Aquele cheiro que vinha dela, era muito forte, ele começou a se sentir enjoado. Não queria puxar assunto, ela tinha cara de poucos amigos, e bom, ele também não era do tipo de pessoa que conversa com qualquer um. Olhou para a janela.

- HEY ! MEU TÊNIS ! - A estranha garota gritou com raiva. Um cara havia pisado em seu pé, alias ele nem deu importância, deu de ombro e desceu do ônibus. - Filho da puta.
Rick riu, e nem se dera conta que havia soltado uma gargalhada e não um riso baixo. Ela o encarou furiosa.
- Tá rindo de que ?
- Tanto drama por um tênis ?
- Não é o tênis, é a falta de respeito.
Assunto encerrado.
Ela devia ser só mais uma adolescente rebelde sem causa. Não valia nem cinco minutos de conversa. Quando o ponto dela chegou, sequer se despediram. Rick ficou um pouco confuso, mas logo esqueceu, tinha um longo dia de trabalho pela frente.

                                                          

domingo, 9 de dezembro de 2012

Capitulo Dez

- Victor ? - chamava o Senhor. Ronald da porta do quarto. Estava impaciente, alias, era impaciente. Sua esposa o irritava os nervos, tanto que ele mantinha um caso com uma antiga amiga. Era um homem baixo, sem grande beleza, os olhos miúdos e uma boca sempre zangada.
- Entra... - gritou Victor de dentro do quarto, ainda estava deitado na cama.
- Você precisa ir pro colégio, está atrasado.
O garoto pulou da cama, se vestiu rapidamente e entrou no carro. Quando chegou ao colégio, a primeira aula já havia começado. Biologia. Se sentou ao lado de Renato.

- Tá atrasado em.
- Avá. - respondeu com irritação. Renato parecia ter ficado ofendido, mas logo esqueceu. Falando baixo, para não despertar a atenção da professora, perguntou - E ai, vai rolar ?
- A chácara ? - Perguntou com ar maroto, em seguida, tirou do bolso da calça um chaveiro. - Claro que vai.
Victor sorriu. Essa seria uma das melhores festas que ele iria dar, tinha até chamado um cara para tocar, nada muito grandioso, apenas um cara que tocava violão e estava precisando fazer um bico. Mas ainda era quarta-feira, a festa demoraria muito para chegar.

                                                                       * * *

Na hora do intervalo, Marje estava sentada em uma escada, conversando com Carolyn, quando de repente um cheiro adocicado e enjoativo pairou no ar. Uma cara ainda mais enjoada, sorriu, um riso amarelo.

- O que você quer aqui Victor ? - perguntou Marje rispidamente
- Me desculpar...
- Não precisa me pedir desculpa. - respondeu
- Não é pra você, é pra Carolyn.
- Para mim ? A essa é boa. Desculpa pelo que ? Por ter me usado e me jogado fora ?
- Desculpa porque sou um idiota.
- Isso você é mesmo. - Marje se intrometeu, não conseguiria perder aquela oportunidade. Victor nem sequer prestou atenção no comentário, olhava fixamente para Carolyn, como se estivesse a seduzindo, hipnotizando.
- Eu estava louco aquele dia. Como pude deixar você daquele jeito ? Perdão, de verdade. Você é linda, maravilhosa, e se nunca mais quiser falar comigo eu entendo, mas por favor me desculpe.

"Que ridiculo" - Marjorie pensava. Discurso ensaiado, pura falsidade. Ela jamais cairia nisso, mas a amiga por outro lado permaneceu pensativa o resto da manhã.
Carolyn sempre dizia que todos merecem uma segunda chance. Mas Victor não merecia nem a primeira. Mesmo assim, toda aquela cena que o garoto fizera, lhe deixara mole.

                                                                 * * *
Na saída do colégio, Carolyn quase não conversou com a amiga, estava imersa em milhares de pensamentos confusos. Poderia ser mentira dele, mas e se não fosse ? De repente ele poderia ter realmente se arrependido.

- Não me diga que tu tá levando em consideração as coisas que aquele imbecil disse ... - Marjorie quebrou o silencio. A amiga a olhou rapidamente, como se fosse protestar, mas recuou e encarou o chão. - Não acredito nisso !
- Cara, ninguém pode ser tão escroto assim de fuder com alguém e não se arrepender !
- Ele é ! Ou você acha que foi a primeira mina que ele fez isso ?
- Uma hora as pessoas mudam.
- Então okay, vai em frente. - Apertou o passo, deixando a amiga para trás. Entrou no ônibus sem se despedir.

                                                                  * * *
Renato e Victor conversavam pelo MSN.

" Quantas pessoas vc tá pensando em chamar ? "
" Sei lá, umas minas gostosas e uns amigos... "
" Posso chamar a Marjorie ? "
" Tá zuando né ? A mina me fudeo na ultima festa..."
" Mas a chácara é dos meus pais..."
" Aff, chama então. Mas duvido que ela vá...."

Renato tinha planos para esta festa, ela iria ver que ele era um cara legal.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Capitulo nove

Renato ainda fantasiava os momentos, nem tão agradáveis, que passara com Marje. Ele havia a "salvado", isso deveria contar alguns pontos. Quem ele queria enganar ? Era mesmo um bobo, solitário e carente. Deveria esquecer isso. O celular vibrou. Renato soltou a fumaça de um beck de maconha, que vinha prensando, e atendeu o celular tossindo um pouco. Era Victor.

- Cara, preciso falar com você...
- Diz ai Victor.
- To querendo armar um lance pra esse final de semana, mas na minha casa não da mais.
- E ae ?
- Seus pais tem uma fazenda, não tem ?
- Uma chácara, perto do lago...
- Que seja, se acha que rola ?
- Posso fazer rolar.
- Valeu ! Me liga qualquer coisa.

A chácara era muito bem cuidada, os pais de Renato tinham um verdadeiro mimo por aquele lugar, talvez porque tivesse sido próximo aquele lago que se conheceram, besteira romântica. Não seria uma boa ideia colocar um bando de gente bêbada naquele lugar, ainda mais porque tinha um lago, poderia ser perigoso. Mas Renato não pensou em nada disso.

                                                                     * * *

Alice estava muito atordoada e deprimida com os acontecimentos dos dias anteriores. Não sabia o que devia fazer. Insistir, e lutar por Ketelyn, seria causar ainda mais problemas para todos. Porque a mãe dela não podia apenas entender isso ? O que havia demais ? Alice era uma garota, mas e se fosse um menino ? De repente tudo seria simples e perfeito ?
Ketelyn andava indo com frequência para o hospital. Estava sempre cansada. E de uns tempos para cá vinha perdendo muito peso. E agora, Alice sequer podia saber como ela estava. Se ao menos, ainda estudassem na mesma escola...
Se levantou rapidamente, vestiu uma camiseta listrada e uma calça jeans, calçou os tênis, e saiu pra rua. Precisava andar.
Ia passando pelas ruas, como se estivessem em um clipe, sua dor, sua história, sua vida, era quase teatral. Andou muito, tanto que chegou a um ponto que já não tinha certeza de onde estava. As casas pareciam casas de bonecas, um bairro nobre da cidade. Alice morava muito longe dali. Uma praça, bem arborizada, com bancos novos, e uma grama bem cuidada enfeitava uma daquelas ruas. Sentou-se em um dos bancos, admirada pela beleza do lugar.
Quis esquecer tudo, fingir por um momento que era uma garotinha de vestido rosa de cetim. Que tinha um namorado, play boy, que a buscava as oito horas em ponto com seu carro do ano. Fingiu por alguns instantes que sua mãe era uma senhora de respeito, muito amável e carinhosa, que sempre levava biscoitos e leite para ela. Quis que seu pai fosse um homem trabalhador, queria conhecer seu pai. Ah, como era doce a vida daquele lado da cidade. O cheiro de torta, não de cigarro, era o que sentia no ar. Os problemas não chegavam aquele lugar. Era sereno, e tranquilo.

- Hey ...  - Uma voz masculina a fez despertar do seu mundo mágico.
- Ãh ? - respondeu meio zonza.
- O que está fazendo aqui ? - Um antigo amigo, que há muito tempo ela não via, estava a encarando de frente, com um ar preocupado.
De repente, a realidade voltou aos seus olhos. Não existiam casas de boneca, não tinha cheiro de torta no ar, ela não era uma garota de vestido rosa. Ela havia apenas sonhado.
- Caralho, onde eu to ?
- Bem longe da sua casa, e você tá cheirando a pinga.
Agora tudo fazia sentido, ela havia saído para andar, e encontrara uns amigos que estavam indo tomar umas bebidas. Ela só não tinha ideia de onde estava. Olhou ao seu redor para ver se reconhecia o lugar; Era uma praça, mas não era uma praça bonita como dos seus sonhos, mas também não era nada mal. Havia alguns casais, umas crianças brincando de bola.. E havia uma menina, triste, sozinha, perdida, confusa, dormindo sentada em um banco. Era o contraste do lugar.
 - Rick, porra, quanto tempo.
 - É, e você continua a mesma irresponsável. Dormindo em bancos de praça, sozinha.
 - Ah, é que a vida tá foda.
 - Vou te levar pra casa...

Rick e Alice haviam se conhecido dois anos atrás em uma festa, se divertiram juntos, e depois continuaram a conversar. Ele era uma espécie de diário para Alice, visando que, se conheceram na mesma época em que ela se apaixonou perdidamente por uma colega de classe. Rick era o único que sabia de tudo isso, também foi ele quem a ajudou. Mas depois da morte de sua mãe, Sabrina, o garoto que existia nele se apagou, e aos poucos foram se afastando.

- Ketelyn, ainda ?
- Pra você ver... Mas e você ? Tem namorado ?
- Não tenho tempo nem para respirar direito, meu trabalho tem me sufocado.
- E porque não arranja outra coisa ?
- Não é assim que funciona... Meu pai não trabalha mais, só vive enfiado dentro de um bar. Arranjar emprego não tá tão fácil assim. Ganho bem onde estou...
- Sei lá, de que adianta ter dinheiro e não ter vida ?

O silêncio reinou.
Andaram lado a lado.
Rick, no fundo concordava com ela. Um lado dele, aquele jovial, de vinte anos, queria sair, comemorar a vida, beijar garotas, como os caras de sua idade faziam, porém um outro lado, o lado de toda a sua maturidade, que deveria ter ao menos uns quarenta anos, o dizia para focar no trabalho, pois farra não o levaria a lugar algum. Respirou fundo, soltou a fumaça do cigarro, e olhou para Alice, balançando a cabeça positivamente. Ela entendeu, apenas sorriu, mas havia entendido.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capitulo Oito

"George, preciso falar com você" - Marjorie apertou "enviar" com uma certa relutância, em poucos minutos seu chamado foi atendido.

"Eu preciso te contar uma coisa... conheci uma mina legal aqui na minha cidade... :s "
"Você tá namorando ? Tu me traiu ? "
"Não, não, nada disso... Mas você tá longe, e a gente sabe que eu não posso simplesmente me mudar pra sua cidade assim. Acho que é melhor a gente seguir nossas vidas D: "

Com as mãos tremendo, ela escrevia centenas de coisas e as apagava sem ter certeza do que responder. Deveria tenta-lo fazer mudar de ideia ? Mas sempre ouviu dizer que quem ama deixa a pessoa partir. Era mais difícil do que os autores diziam nos livros. Ela nunca havia o visto pessoalmente, apenas conversavam pela web cam, mas mesmo assim, o amor que ela sentia por ele era plenamente verdadeiro, doía de verdade aquela situação. Marje era muito romântica, talvez, apesar de toda a sua postura e de todos os seus esforços para ser fria, ela era uma "manteiga derretida", se apaixonava muito fácil, e sofria demasiadamente por isso.
Por fim apenas lhe enviou "Você quem sabe".
As lágrimas quentes rolavam pelo rosto, enquanto George pedia um milhão de desculpas. "PRO INFERNO COM ESSAS DESCULPAS! " - ela exclamava mentalmente. Afinal, dentro de algumas semanas ele estaria namorando com outra, ele estaria feliz. Mas e ela ? Deveria fazer o mesmo que ele... Porque era sempre ela quem acabava mal nas histórias ? Sempre ela que não conseguia abandonar a posse do sentir ?
"Que se dane" - disse para si mesma. Desligou o computador e saiu. Mas George permaneceu em sua mente o caminho todo que ela fizera até a casa de Carolyn.

                                                                      * * *

Carolyn resolveu se perdoar pelo acontecido na casa de Victor. Ele era um idiota, ela tinha sido uma garota boba por ter se entregado a ele, mas que ficasse de aprendizagem. Colocou uma  pedra em cima disso tudo. As quatro horas da tarde acordou, depois de ter deitado ainda vestida com as roupas que fora da escola. Tinha alguém batendo na porta de seu quarto e pela maneira impaciente deveria ser a Marje.

- Entra!
E era mesmo ! Marjorie entrou no quarto com os olhos vermelhos, de choro. A maquiagem estava um pouco borrada e as mãos tremulas. O rosto pálido dela ficava ainda mais branco nestas situações.
- Eita porra, o que aconteceu ?
- O George largou de mim ! - Ela se atirou numa cadeira onde havia uma blusa pendurada no encosto. E com as mãos sobre o rosto começou a chorar baixinho. O choro se amplificou quando a amiga a abraçou de pé.

Passada a choradeira, Carolyn quis saber o que realmente tinha acontecido. Ouviu tudo atentamente, sem interromper nenhuma vez, então simplesmente disse:

- A vida continua.

                                                                     * * *

Já deveriam ser umas sete horas da noite quando Marjorie pegou o ônibus de volta para a casa, por insistência da amiga, pois preferia mil vezes voltar andando.
Não estava nem na metade do caminho quando pingos de chuva começaram a aparecer na janela...
"Ótima hora para chover" - pensou. Não, não estava preocupada em pegar chuva, se preocupava com a sensibilidade e a nostalgia que qualquer garoa trás. Pela janela do auto ela via pessoas correndo para lá e para cá, com certeza havia histórias fascinantes naquelas ruas; Dramas quase mexicanos; Com certeza havia muita história para contar sobre aquelas pessoas se escondendo da chuva não anunciada.
É, a chuva chega mesmo quando quer, e vai embora só depois de ter feito bastante estrago. Mas as vezes também a chuva é necessária. De repente uma canção mais melancólica do que aquela chuva que gotejava embaçando todo o vidro, começou a tocar. "Agora já era"; A letra triste e a batida lenta a envolveram... Nada mais a salvaria daquela dor sem fim.
Olhou para o céu, como ultimo recurso. Nuvens pesadas anunciavam uma tempestade terrível. Fechou os olhos, e desejou que o tempo passasse rápido o bastante para ela não ter que viver aquela dor, ou provar do gosto azedo da solidão. Então, dois rastros negros, do que sobrava de sua maquiagem, escorreram pela face.
Era a resposta.
Olhou novamente para o céu.
A chuva passaria, o arco-iris chegaria então. Mas ele... Ah, ele não chegaria jamais.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Capitulo Sete

Não parecia ser um bom dia para ninguém. Alice notou isso, logo quando saiu de casa. Sua vó estava muito brava, pois a mãe de Ketelyn havia telefonado para lá e dito barbaridades para ela. No onibus o motorista não parecia muito contente, assim como todos os passageiros também não. Bom, talvez fosse apenas o sono tomando conta de todo mundo. Mas algo no ar estava realmente mais pesado aquela manhã.
                                                             
                                                                          * * *

Marjorie se rendeu ao sono nas primeiras aulas, não havia dormido mais depois de despertar do sonho que tivera com George. Precisava urgentemente falar com ele.
No intervalo, uma confusão a aguardava no corredor.

- Muito obrigada por acabar com a minha festa ontem ! - Gritou Victor se aproximando como um touro de Marjorie, que não teve o que fazer além de encostar em uma parede e ficar o observando falar. - Sabia que a policia me deu uma multa ? Todo mundo lá era menor de idade, e tinha bebidas lá ! - havia muito mais do que bebida naquela festa.
- Ops... foi sem querer. - respondeu ela com ironia, e não pode conter um riso ao ver que Victor ficara ainda mais puto de raiva.
- Além de eu te chamar pra minha festa, você ainda faz isso ! Ah, você é uma vadia mesmo !
- Quem te contou que fui eu quem chamou a policia ?
- Não te interessa ! - Com toda certeza aquele cara que veio puxar assunto com ela, que havia contato. Deveria ter ficado com raiva dela por ter lhe trato mau, além disso, ele havia falado alguma coisa sobre ser amigo de Victor. Como era mesmo o nome daquele otário ?
- Então, me deixe passar. - Victor abriu caminho. Era um completo imbecil, mas bater em uma menina estava fora dos planos, afinal de contas ele tinha uma reputação para selar. - Nunca mais apareça na minha casa ! - gritou para finalizar. Marjorie não se importava, outras festas haviam no mundo, e as dele não eram nem de longe as melhores.

Era a ultima aula quando reencontrou o cara da festa. Desviou o olhar rapidamente para que ele não a visse, mas não teve jeito, em segundos ele estava ao lado dela, falando sem parar.

- Eu te liguei ontem, mas você não me atendeu, lembra de mim, né ?
- Como eu poderia esquecer... - a frase saiu muito mais como um lamento, do que como um elogio. - Como conseguiu meu telefone ?
- O Victor me passou. - disse sorrindo. Mas seu sorriso se apagou, logo que percebeu que ela ficara furiosa só de ouvir o nome do outro. Será que eles não se gostavam ? Mas se não se gostavam o que ela estava fazendo na festa dele ontem ? - Você não gosta dele ?
- Olha, eu to com pressa.
- Ah, sim, claro. Posso ir com você até o ponto ?
- Eu to com cara de quem quero papo ? - Será que ele não se tocava ?
- Posso ir em silêncio. - Talvez estivesse incomodando, mas se lembrou do que seu pai lhe dizia sempre "Para conquistar uma mulher é preciso ter paciência e ser insistente".
- Tá né.

Eles caminharam lado a lado, hora outra ela apertava o passo, mas logo diminuía  Foram atravessar uma rua, e Renato percebeu que Marjorie estava um pouco desligada e não viu o carro que dobrava a esquina. Com um movimento rápido ele a puxou para trás a livrando do possível acidente. O carro buzinou. Marje havia perdido toda a cor do rosto e seus lábios tremiam,  ficaram ambos na calçada, se olhando.

- Você tá bem ? - Renato perguntou por fim.
- É, valeu.

Aquilo poderia ser o incio de uma linda história de amor, poderia, mas não iria ser.

                                                                   * * *:
Rick estava sentado no ônibus com seus fones de ouvido, quando uma garota muito estranha entrou, deixando do lado de fora um guri. Se sentou no banco um pouco a sua frente. Ele a observava, e aos poucos ela ia ganhando uma certa beleza. A cada gesto era uma nova descoberta de uma personalidade forte. Rick era muito observador neste aspecto, conhecia alguém apenas pela forma desta pessoa se movimentar.
A garota por exemplo, mexia o tempo todo no cabelo vermelho e cumprido, por tanto ele logo deduziu que apesar de toda a pose ela era insegura. Realmente gostou da forma como ela se vestia, e de sua maquiagem, mesmo sendo ambas muito exageradas. Era expressiva, ele gostava disso.
Lembrou-se vagamente de Katia e de toda a sua aparência comum. Olhando para a menina sem nome, ficou imaginando se ela tinha um namorado, um telefone, quem sabe ? Será que pegava todo dia aquele ônibus ?
Teve que parar de pensar nisso, pois seu ponto havia chegado.
O resto da tarde também não teve tempo de pensar. Ela era apenas umas desconhecida que ele nunca mais iria ver.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Capitulo Seis

Estava irritado e cansado. O trabalho naquela usina estava lhe sugando a vida. E naquele dia ainda, seu chefe havia mandado que ele fizesse hora extra. Já era tarde da noite quando conseguiu finalmente pegar um ônibus de volta para a casa. Sentou-se bem no fundo, mesmo que os bancos estivessem quase todos vazios, se não fosse por duas senhoras que conversavam perto do motorista, um casal sentado bem no meio da fileira de bancos e uma moça sozinha que observava o movimento pela janela. Mas Rick estava mergulhado em uma profunda solidão.
Ao observar os namorados, deu-se conta, de que há muito tempo não se dava ao luxo de sair como uma mulher. Mas também, ele não tinha tempo para essas coisas, a carga horária de seu trabalho era pesada e nos finais de semana tudo que ele queria era ficar em casa com seu violão, que há muito tempo era seu único amigo.
Lembrou-se então, que semanas atrás Katia havia lhe dado seu telefone. Ele o guardou, mas nunca teve tempo de ligar para ela. A moça era bonita, porém de uma beleza comum, nada de extravagante, seu olhar era pouco expressivo assim como as roupas que vestia. Rick tinha uma simpatia grande por ela, mas nada que o fizesse convida-la para sair, embora ela sempre se mostrasse interessada. Mas quem sabe ? Talvez ele se surpreende-se.
Pegou a carteira no bolso da calça e procurou pelos compartimentos um papel com um telefone. Achou. Numa folha dobrada de qualquer jeito, estava escrito em letras garrafais Katia, logo abaixo um número. Guardou de novo o papel, e deixou para decidir se ligaria ou não quando chegasse em casa.
Desceu um ponto antes do seu. Precisava pensar um pouco, e os únicos momentos em que podia relaxar e pensar sobre a vida eram estes, voltando para a casa, na rua deserta e mal iluminada.
As estrelas mantinham um brilho fosco, e a lua não estava aparecendo. De repente, ele sentiu uma saudade dolorida do tempo que sua mãe estava viva. Sabrina era tão jovial quanto seu nome. Exibia sempre um sorriso amável, e era muito esperta e ativa, até que o câncer tomou conta. Mesmo assim, Rick se lembrava, que mesmo doente a mãe permanecia sorrindo e sempre de muito bom humor.
Quando ela estava viva, ele tinha um emprego de que realmente gostava. Com seu amigo Billy, tomava conta de uma loja de CD'S no centro da cidade. Depois da morte de sua mãe, abandonou o negócio e arrumou um emprego em uma metalúrgica para sustentar o pai, que de uma hora para a outra se enfiou dentro de um bar.
Ah, como era triste pensar na vida... Porém, ele não tinha tempo nem mesmo para se deprimir. Ao chegar no portão de casa procurou as chaves no bolso. Sem a minima vontade de entrar ali, entrou.

                                                                          * * *
Quando Marjorie acordou o quarto já estava escuro. Deveria ter dormido muito, pois sentia o corpo todo doer. Sentou-se na cama e se lembrou vagamente do sonho que tivera.
"Ela estava abraçada com um rapaz, não podia ver seu rosto, mas tinha certeza de que era George. Com voz doce e ao mesmo tempo chorosa ela pedia:
 - Me abraça. Forte. E nunca me deixe.
Ele não respondia nada, nem o minimo ruido, mas a apertava com força contra o peito. De repente, como um passe de mágica ele desapareceu e ela se viu sozinha. "
Passou a mão pelo rosto, estava suando. Pegou o celular e ligou, uma musica de inicialização tocou. Olhou as horas, 23:23. Sorriu e disse como deboche "Será que alguém está pensando em mim ? ". Logo o sorriso se apagou, e a luz do celular também. Deixando novamente o quarto em penumbra. E ela estava realmente sozinha.

                                                                          * * *
Aquela noite Carolyn não conseguiu dormir. Em sua mente ainda rodavam as cenas da noite anterior. Se via beijando Victor. O quarto. A cama. O corpo nu do garoto em cima do seu. Depois o via a abandonar nua e frágil em seu quarto, sem a minima palavra. Em seguida ele ria e contava vantagem para um bando de idiotas. Será que riam dela ? Que tipo de imagem ela tinha para aqueles olhos acusadores ?
Alguém, por favor, os faça parar de rir !
Sentou-se na cama e se encolheu, como uma criança assustada. Com as mãos sobre o rosto sentiu lágrimas quentes escorregarem pelos dedos.
Ela era uma vagabunda, se sentia assim.

sábado, 10 de novembro de 2012

Capitulo Cinco

Aquela tarde Marjorie estava com o humor muito vulnerável. Como uma bomba, ela estava pronta para explodir, e não seria nada bonito quando isso acontecesse. Tinha brigado com George ( seu namorado, embora estivessem juntos há pelo menos dois meses não haviam se visto até então. Ele morava um pouco longe então os dois mantinham um relacionamento virtual.)  e os acontecimentos da noite passada estavam a perturbando. 4:00 PM, Alice ligou.

- Marje... - a voz era chorosa
- O que foi ?  O que aconteceu ontem ?
- Bom, depois que vocês foram embora a ambulância chegou.
- E como a Ketelyn está ? - sua pergunta pareceu superficial  quer dizer, não estava realmente preocupada com a garota, mas sim com Alice.
- Está bem, quero dizer, não muito, mas pelo menos não corre mais perigo. - respondeu confusamente.
- Perigo ?
- É, Ket não tinha me falado que bebeu uns remédios fortes antes de ir pra festa. Lá ela encheu a cara, por isso passou mal. - deu um longo suspiro e continuou num tom desanimado e triste - A mãe dela chegou no hospital quando ela já estava consciente, mas não fez a menor cerimônia e começou a me xingar dos piores nomes possíveis. Por fim disse que não podemos mais nos ver.
- Nossa véi, que foda. Mas não muda muita coisa, quero dizer, desde que vocês começaram a namorar a mãe dela diz isso, antes dua vó também encanava, e mesmo assim vocês continuaram. Sei lá, vocês vão dar um jeito ! - tentou animar.
- É, mas dessa vez é diferente - fez um longo silêncio, até que com uma voz vacilante prosseguiu - Eu quase a matei... - Marje percebeu que a amiga começara a chorar. Ouviu um soluço.
- Ei, para. Não foi sua culpa, Ket que é uma ... - parou, ela sabia como queria terminar aquela frase, estava com raiva da Ket, a verdade era essa. Mas precisava pensar em Alice, ela amava aquela garota, por mais repugnante que fosse. Mudou o tom de voz, e concluiu com serenidade. - Você não tinha como saber.
Alice havia parado de chorar, ou pelo menos estava contendo o choro. A voz ainda era tremula.
- Vou desligar, depois te ligo.

Marje ouviu a linha ser desligada, mas permaneceu com o fone mudo no ouvido. Pensou em telefonar para Carolyn, mas deixou para lá. Se jogou na cama e ficou olhando para o teto, sem a minima expectativa de encontrar em seus pensamentos algo que lhe acalma-se a alma.

                                                                          * *  *

Renato estava deitado em sua cama, sorria de orelha a orelha desde que acordara. Como se a conversa que tivera com Marjorie na noite passada houvesse sido de fato agradável. Bom, pelo menos ele a ajudou com a amiga, e ainda conseguiu arrancar um sorriso e algumas palavras menos hostis dela. "Ela é osso duro" - pensava.
Será que haveria alguma chance de ficar com ela ? O que uma garota como Marjorie poderia querer com ele ? Será que ela tinha um namorado ?
Se lembrou de quando sentou ao lado dela na escada, ao recordar da cara de desprezo que ela fizera uma ponta inevitável de melancolia e desesperança o tomou. Cobriu o rosto com o travesseiro e um leve cheiro de maconha lhe entrou pelo nariz. Sentiu-se enjoado. Correu para a janela e a abriu.
Um vento frio lhe soprou o pescoço.  Novamente seus pensamentos foram parar em Marje, uma sensação estranha lhe embrulhou o estomago, seriam borboletas ?
Passou a mão pela testa. Fechou a janela e resolveu ligar para ela, Victor havia lhe passado o número.

                                                                       * * *

Os devaneios de Marjorie foram interrompidos por um vibre, que em instantes se transformou em uma escandalosa música. Na tela do celular estava escrito "NUMERO DESCONHECIDO". Desligou o aparelho, não estava com ânimo para falar com ninguém aquela hora.